Eram quase quatro da manhã quando eu desisti de dormir. Aquela noite tinha sido das piores. O peito apertado, a cabeça cheia de coisa, e o silêncio da casa pesando mais do que de costume.
Faz quase um ano que perdi o meu marido. Os filhos moram longe, ligam quando podem, mas a casa fica grande demais pra uma pessoa só. Naquele dia, acho que tudo desabou junto.
Foi quando, mexendo numa caixa de coisas antigas, encontrei o caderninho da minha mãe.
O caderninho
Era um caderno simples, capa marrom, com a letra dela cuidadosa em cada página. Orações que ela rezava todas as madrugadas, antes da gente acordar. Eu lembrava de vê-la sentada na cozinha, café fumegando, as mãos juntas, sussurrando baixinho.
Tinha esquecido daquilo. Em algum momento da vida adulta, fui deixando a oração de lado. Não por descrença — só por correria, por achar que dava conta sozinha.
"Sentada ali, na madrugada, eu abri o caderno e comecei a ler. Não rezei naquela primeira noite. Só li."
O que foi mudando
No dia seguinte, escolhi uma oração e rezei antes do café. No outro dia, outra. Não foi nada de imediato, e eu não quero contar isso pra você como se fosse mágica — porque não foi.
"O sono foi voltando como volta uma amizade antiga: devagar, sem promessa."
O que eu sinto hoje é uma paz que eu tinha esquecido que existia. Não é euforia. É uma quietude. Como se eu tivesse reencontrado uma porta que estava ali o tempo todo.
Quando contei pras amigas
Comecei a contar pra umas amigas. A vizinha do lado, que também perdeu o marido. Uma comadre que mora em outro estado e me liga toda semana. Elas começaram a rezar também, cada uma do seu jeito.
"A fé, quando a gente volta pra ela, devolve uma parte de nós que estava perdida."